Hoje é um desses dias em que estava eu tranquila, abrindo meu e-mail sossegadamente e resolvendo pendências acadêmicas, examinando bem de perto alguns prazos que tenho para cumprir quando a amiga Ana Cristina Rodrigues me cutucou via gtalk me mandando uma notícia que segundo ela eu iria gostar MUITO de saber…

E então eu me senti como se trabalhasse no editorial de alguma revista, em um dia tranquilo e nada promissor, preparando alguma matéria sem muito gosto até que um grande evento ocorre e tudo o mais precisa parar para dar atenção a uma notícia quente e bombástica.

E a notícia que fez parar tudo foi bem essa: A EDITORA LEYA ANUNCIA O LANÇAMENTO DA SÉRIE A SONG OF ICE AND FIRE NO BRASIL.

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Não é segredo para ninguém que a série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin, é uma de minhas sagas literárias prediletas. Já tive a oportunidade de resenhar aqui, anteriormente, A Game of Thrones e A Clash of Kings, os dois primeiros livros da série. Pensei em resenhar os outros dois, mas pelo risco de esbarrar e não conseguir evitar alguns spoilers, o que não seria desejável, achei mais conveniente um texto que tratasse de toda a saga em si mesmo, de forma geral, pois sem dúvidas há muito a ser dito.

Só que farei este post EM PARTES. A saga é muito extensa e bastante rica em detalhes. Até agora, são mais de quatro mil páginas de texto riquíssimo em detalhes e informações. Então, primeiramente, algumas palavras sobre o enredo da saga. Claro, aqui está em resumo, com o mínimo de spoilers possível – e com direito a ilustrações bonitinhas que achei internet afora. :)

Então, vamos lá:

Uma Breve História de Westeros

Era uma vez o continente de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno toda uma vida. O descompasso entre as estações do ano acaba por trazer alguns inconvenientes, como, por exemplo, o ataque de criaturas míticas conhecidas como Os Outros (nenhuma referência a Lost aqui), que vivem no extremo norte do mundo onde a neve é eterna. Para evitá-los, há alguns milênios foi construída, com gelo, pedra e magia, pelos primeiros habitantes do continente (the First Men e the Children of the Forest – os Primeiros Homens e os Filhos das Matas) uma barreira (“the Wall”) para impedir seus ataques. Uma das principais famílias do norte, os Stark, desde então, vem sendo um dos principais mantenedores da barreira, esforçando-se para mantê-la.

Com o tempo, outros povos do mundo, como os Andals e os Rhoynar, migraram para o continente de Westeros, formando, com os povos que já o habitavam, sete reinos, que viviam em constante guerra entre si.

Até que, fugindo da poderosa cidade-estado de Valyria – que pouco depois foi destruída por um cataclisma conhecido como The Doom – Aegon Targaryen, acompanhado de suas duas irmãs e de seus três dragões, conquistou Westeros. Após alguns entraves políticos que duraram poucas gerações, os Sete Reinos estavam submetidos à Dinastia Targaryen, os reis de toda Westeros.

Porém há uma particularidade entre os Targaryen: para manter a linhagem “pura”, ou mesmo evitar conflitos de poder, os irmãos se casam entre si – talvez por isso a manutenção de características como cabelos prateados e olhos roxos e violetas – e há algo sobre eles digno de nota: “toda vez que nasce um Targaryen, os deuses jogam uma moeda: ou ele será brilhante, ou será um maníaco”.

Por trezentos anos os Targaryen governaram pacificamente, enfrentando apenas algumas rebeliões de fácil controle e eventos trágicos como a morte de todos os seus dragões, até o advento do rei Aerys II, the Mad King – que era, bom, louco. Seu filho mais velho e herdeiro, Rhaegar Targaryen, raptou Lyanna Stark, única filha da tradicional família do norte, o que acabou por desencadear uma violenta guerra civil.

Dentre os principais líderes dos rebeldes estavam Eddard Stark, irmão de Lyanna e herdeiro da Casa Stark, e Robert Baratheon, seu amigo de infância. Quando a guerra estava quase decidida, os Lannister, a família mais rica de Westeros, juntaram seus esforços às forças rebeldes para pôr um fim na dinastia Targaryen. Sobraram apenas a rainha, grávida de uma menina que se chamou Daenerys, e Viserys, seu filho pequeno, mandados para o exílio.

E assim começou o reinado de Robert Baratheon I…

Os Livros da Série

A série A Song of Ice and Fire tem previsão, no momento, de ser composta por sete livros (há também um spin-off, chamado Os Contos de Dunk e Egg, compostos até agora por três contos soltos – The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante), The Sworn Sword (A Espada Jurada) e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso), que também se passam em Westeros, mas com personagens diferentes e cerca de setenta anos antes dos eventos da saga principal). Já foram lançados quatro livros – A Game of Thrones (1996), A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000) e A Feast for Crows (2004). O quinto livro, A Dance with Dragons, está previsto para sair “em breve” – um “em breve” que vem se estendendo desde 2005, mas enfim…

1. O Jogo de Tronos

1.1. O Jogo de Tronos

O primeiro livro da série, após um prólogo eletrizante que vem afirmar para os quatro ventos que esta é sim uma saga fantástica, nos apresenta Eddard Stark, o austero patriarca de Winterfell, o castelo do norte, que segue sua rotina normal juntamente de sua esposa, Catelyn, e de seus cinco filhos legítimos e seu bastardo. Um belo dia, recebe a notícia que Jon Arryn, o homem que o criou e que ocupava o cargo de Mão do Rei – uma espécie de primeiro-ministro, que faz o serviço pesado de administração do reino enquanto o rei bebe, caça e se diverte – está morto. Além disso, o rei Robert está a caminho, pois quer convidá-lo para ser a nova mão do rei.

Logo, chegam a Winterfell o rei Robert, sua esposa, a bela e arrogante Cersei Lannister, seus três filhos e os dois irmãos dela – Jaime, o belo e cruel guarda real, e Tyrion, o anão, que não é belo como seus irmãos, mas possui uma notável capacidade de raciocínio. Eddard – ou Ned, para os íntimos – enxerga a família Lannister com desconfiança, afinal o patriarca Tywin Lannister escolheu apoiar os rebeldes apenas quando a guerra já estava decidida e, principalmente, por Jaime Lannister, da guarda real, que jurara proteger o rei, ter matado Aerys II, e estava sentado no Trono de Ferro, com sua espada ainda suja de sangue – o que rendeu a ele a alcunha de Kingslayer (o Matador de Reis, o Matarreis) e o desprezo profundo por parte das demais pessoas.

Ned não está inclinado a aceitar o convite, mas uma carta recebida por sua esposa, Catelyn, com a indicativa de que na verdade Jon Arryn não morreu de causas naturais, mas foi assassinado, juntamente com uma tragédia familiar repentina, mudam toda a situação. O patriarca Stark vai para a Corte, conhecendo suas figuras boas e ruins, honradas e desonradas, e acaba, mesmo que sem querer, participando do Jogo de Tronos – o eterno jogo de manipulações e intrigas que tem a capacidade de retirar ou pôr este ou aquele rei no trono.

E, como diria a rainha Cersei, “No jogo de tronos, você ganha ou morre. Não há meio termo”. Há vários jogadores, vários trunfos, várias cartas na manga. E não são todos os participantes que jogam limpo ou de maneira honrada na grande parte do tempo. Agora, Ned vai ter de confiar nos seus instintos para fazer as melhores jogadas, ou confiar ou desconfiar das pessoas certas no momento certo.

1.2. A Muralha

Enquanto a trama na corte se sucede, temos também a história de Jon Snow. Ele é o filho bastardo de Ned Stark, criado com bastante amor e carinho por seu pai, juntamente a seus irmãos e irmãs. Todavia, a madrasta, Catelyn, sempre se ressentiu do bastardo que o marido trouxe para casa, de mãe desconhecida, que representa sua traição, um risco para seu primogênito, Robb – ambos regulam idade e são os melhores amigos um do outro – e que, golpe de misericórdia, é o único filho homem que herdou os traços físicos da família Stark.

Jon então cresce consciente que está em uma posição diferente e inferior à dos irmãos e que nunca poderá herdar Winterfell. Cresce também com um código de conduta quase tão rígido quanto o do seu pai e, encantado pelas histórias que ouviu durante a infância e também pelas contadas por seu tio Benjen Stark, além de consciente de que a bastardia não é o melhor cartão de visitas, parte para se juntar à Night’s Watch (Patrulha Noturna), que guarda a Muralha desde seus primórdios.

Como as histórias dos Outros viraram lendas, a Night’s Watch encontra-se em um momento de baixa. Salvo um ou outro membros de famílias tradicionais do norte, como o próprio Benjen Stark e alguns outros, é o perfeito lugar para “desovar” bastardos, criminosos e indesejáveis sociais diversos. A falta de recursos por parte do Rei também é evidente, e os homens devem matar um leão por dia para se manterem vivos e cumprirem suas funções de vigilância. Além disso, a ordem funciona como uma irmandade – seus membros precisam renunciar à antiga vida, bem como fazer votos de castidade e pobreza.

Então, o Bastardo de Winterfell, criado no conforto da casa grande, precisa aprender que nem todos saíram do mesmo berço nobre, perder resquícios de arrogância e aprender a levar sua nova vida gélida e dura da melhor maneira possível.

Acontece que coisas estranhas estão acontecendo Além da Muralha e Jon precisa manter todos os seus sentidos alertas…

1.3. A Rainha Do Outro Lado do Mar

Mas Aerys deixou uma herdeira, Daenerys, nascida após a morte de seu pai e enquanto sua mãe e irmão estavam no exílio. Ela nasceu durante a maior tempestade que assolou Westeros, ganhando assim o epíteto de Stormborn (Filha da Tormenta), que será apenas o primeiro de muitos que ganha ao longo da trama. A mãe acaba por morrer no parto, deixando-a sozinha no mundo, junto a seu irmão Viserys.

Os dois vivem a infância de cidade a cidade em seu exílio fora de Westeros, até que Viserys se aproveita do fato de ter uma irmã princesa, de sangue real valyriano e, quando ela entra na puberdade, a vende como esposa para Khal Drogo, o líder de uma tribo nômade de guerreiros criadores de cavalos em troca de um exército. Só que a moeda que os deuses jogaram para Viserys foi a da demência, tornando todos os seus planos de conquista infrutíferos.

Então, Dany precisa juntar força dentro de si para deixar os tempos de menina e tornar-se uma mulher, guerreira e estrategista, pronta para tomar para si seu reino de direto. Para isso, ela terá aliados – alguns deles, hmm… especiais, digamos assim – e inimigos, mas terá de contar principalmente com sua perseverança e força de vontade.

Mas o caminho do crescimento não é assim tão fácil…

2. O Choque de Reis

Conforme se torna previsível pela leitura do primeiro livro, o jogo de tronos se torna mais ativo do que nunca. Novos participantes interessados no Trono de Ferro se anunciam e uma guerra civil se avulta no horizonte, de proporções até mesmo fratricidas. Aqui, as ações de Robert e Eddard mostram suas consequências, e nem todas serão agradáveis para todas as pessoas.

São apresentados com maior vagar os outros irmãos Baratheon: Stannis e Renly, cada um deles aliado a uma das facções conflitantes. Stannis, por sua vez, associou-se com uma feiticeira, Melisandre, o que dá o gancho para um dos pontos que permeiam a saga: o conflito religioso entre a Fé dos Sete, seguida pela maioria do reino – e que em muito se assemelha com o catolicismo, desde analogia a dogmas como o Mistério da Santíssima Trindade até mesmo a forma de organização monástica, com “padres”, “freiras”, “monges” e até mesmo um “Papa” – e a crescente religião de R’hlorr, o deus da luz, em sua eterna batalha contra O Grande Outro, o deus das trevas.

Também são apresentados os Ironborn (“Filhos do Ferro” que, bom, não são Starks), residentes nas Ilhas de Ferro e uma espécie de piratas, que teve sua rebelião alguns anos atrás, de onde saíram perdedores, mas que agora tem sua oportunidade perfeita para vingança.

É também o início da ascensão de Tyrion Lannister como um grande jogador do Jogo de Tronos. É alguém que possui tudo contra – a aparência repulsiva aos olhos alheios, a desconfiança dos demais jogadores, a oposição explícita de sua irmã Cersei – mas uma capacidade de raciocínio e de leitura dos acontecimentos ímpar. É graças a ele que grandes alianças se firmam, grandes tragédias são evitadas e que a corte se move. E, graças à sua sagacidade e agudez mental, conquista aliados fiéis – e inimigos sedentos por seu sangue.

E o destino das duas filhas de Eddard, Sansa e Arya, começa a se delinear aqui: a primeira, criada para ser uma dama da corte, romântica e adoradora de livros e cañções, começa a duras penas aprender que o mundo real não é bonito, cor-de-rosa e cheio de nuvenzinhas. Pelo contrário: vai se tornando uma adolescente em uma bela prisão de ouro, abusada fisicamente e psicologicamente, esperando pelo cavaleiro andante belo, garboso e cheiroso que a salvará de seus fantasmas (minor spoiler, mas o único cavaleiro bonitão, garboso, cheiroso e sex symbol da trama gosta é de um outro cavaleiro bonito, garboso e conhecido como “o homem mais bem-vestido da corte”). Mas “o mundo não é uma canção” e atrás de faces bonitas há a injúria, e talvez o consolo esteja encoberto por uma camada de rudez e selvageria.

Já Arya, a mais nova, que sempre detestou as coisas de menina e que gostava mesmo era de lutas de espadas, perseguição a gatos e outras brincadeiras de meninos, também se perde em um mundo sujo, sangrento e desagradável, para também sofrer abusos físicos e psicológicos. Ao contrário de sua irmã, um passarinho frágil, ela cresce para se tornar um cão vira-lata e faminto, que não tem pudores para lutar por sua própria sobrevivência. Valar morghulis.

E neste livro, também, a magia do mundo de Westeros vai se intensificando mais e mais. Vai se tornando cada vez menos sutil e mais atuante, mas nem sempre será uma coisa boa, limpa e bonita de se ver, além de custar, às vezes, preços mais caros do que as pessoas estão dispostas a pagar.

E, claro, a guerra civil se inicia. Para quem gosta de batalhas, um prato cheio, que dura uma boa dezena de capítulos e é mostrada por vários ângulos: dos lados envolvidos no conflito e do lado inocente, que deseja apenas estar vivo para ver o sol do dia seguinte.

3. A Tempestade de Espadas

Este é o maior livro e também aquele onde mais coisas acontecem. Aqui, pode-se esperar twists diversos, cenas de efeito e impacto diversos, todas as plotlines e personagens atingindo pontos críticos de conflito e posicionamento. É o ápice dos quatro livros já lançados, também o preferido dos fãs e ganhador de prêmios. A ação ocorre do princípio ao fim, com muitas batalhas, traições, golpes certeiros, vitórias, derrotas, lágrimas e sangue.

É difícil falar sobre este livro por uma razão simples: a história toda – todinha – sofre alterações pelos acontecimentos deste volume. Várias tramas encontram seu fim aqui, com direito a uma das maiores traições literárias que eu me lembre, comparável ao cavalo de Troia, e que também é uma das sequências mais eletrizantes e inesquecíveis de toda a série.

Batalhas são vencidas, batalhas são perdidas, oportunidades aparecem e são aproveitadas, traições se revelam, acertos de contas acontecem, personagens aparentemente desconectados se encontram, conchavos são armados com sucesso, blefes são armados com sucesso e o balanço de poder é alterado de maneira definitiva.

Para não cair em spoilers, só digo que aqui temos a oportunidade de conhecer Jaime Lannister um pouco mais a fundo, saber suas motivações e sentimentos. É uma excelente oportunidade para enxergar um personagem que só foi visto pelos olhares dos outros personagens até agora, a maioria deles realçando seus defeitos, mas de dentro de sua própria cabeça e através de sua interação com Brienne, que é seu oposto polar em qualquer sentido ou direção que se olhe – e que é chave fundamental para entendê-lo.

Um Pequeno Interlúdio: Salto de Cinco Anos?

Era a intenção de George R. R. Martin que houvesse um salto de cinco anos entre o terceiro e o quarto livros da série, para que os personagens crianças pudessem crescer, algumas situações pudessem ficar melhor cimentadas, alguns desenvolvimentos óbvios pudessem ocorrer com calma.

Inclusive, no final do livro 3 alguns personagens foram colocados em locais estratégicos, onde poderiam passar cinco anos sem serem incomodados, com suas plotlines aparentemente resolvidas até ali, todo o caminho traçado para a pausa e amadurecimento. O autor falou várias vezes sobre seu arrependimento de ter colocado protagonistas tão jovens e essa parecia ser a maneira mais simples de fazer com que todo mundo envelhecesse um bocadinho – e também treinasse e desenvolvesse um bocadinho também.

SÓ QUE… Algumas plotlines, até primordiais, não ficariam em suspenso por cinco anos, não sem rios de flashbacks e explicações furadas. Alguns fatos que ocorreram no final de A Storm of Swords demandavam uma solução imediata em termos de continuidade e coerência. Simplesmente não havia a possibilidade de avançar o tempo cinco anos sem prejuízos irreparáveis à toda malha ricamente construída até então.

(e, claro, retcons, que são a coisa mais detestável do mundo, estão e sempre estiveram fora de questão).

Qual a solução, então? Dividir o quarto livro em duas partes, correspondendo ao quarto e quinto livros da saga, para resolver os assuntos pendentes, movimentar as peças no tabuleiro narrativo e servir de interlúdio para a segunda parte da trama, ainda a vir. Os dois livros preenchem o mesmo espaço de tempo, sendo que o primeiro trata dos fatos ocorridos na corte e terras próximas, no sul e na cidade de Braavos, enquanto o quinto tratará do Norte e das terras de Além-Mar.

Então, em 2004, após quatro anos de árdua espera, foi lançado o quarto livro da saga, A Feast for Crows…

4. Um Festim para Corvos

Este é, até então, o livro mais intimista da série.

A guerra civil acabou e uma pretensa e relativa paz começa a se estender por Westeros. Os mortos são contados e enterrados, o poder é reorganizado após sua mudança de mãos, mas o drama de quem realmente perde com a guerra é mostrado: as famílias que perderam seus pais e suas mães, as plantações que não foram colhidas, as terras que não foram semeadas, os milhares de desabrigados e desamparados que enchem os campos. Essas são as vítimas dos jogos de poder, são quem morrerá de fome porque a comida acabou, morrerá de frio porque não há mais casa, será morto porque a lei se foi e os criminosos e enlouquecidos pelas batalhas estão à solta.

É pelos olhos de Brienne, a moça pura e sensível, mas olhada com deprezo por sua aparência e modo de ser, que veremos as pessoas comuns lutando pelo seu restinho de dignidade e pela chance de lutarem por sua sobrevivência.

Mas mais do que isso, há um ponto comum em todas as plotlines deste livro: a identidade. Em metade deles, a busca pela identidade, tenha sido ela perdida muitos anos atrás e que precisa ser recuperada ou que precisa ser construída após uma vida de rejeição. Nos outros três, a perda da identidade – seja ela subtraída voluntariamente, por força das circunstâncias ou por um turbilhão mental de confusão e loucura. E essa privação da identidade também gera e gerará consequências.

São personagens que se procuram, que se opõem. Seja a feia, porém de coração nobre Brienne, que se opõe a belíssima e cada vez mais descolada da realidade Cersei, o destino cada vez mais cruel de Sansa e Arya, as jornadas de Samwell e Jaime, que em última análise buscam a mesma coisa.

Por fim, os Ironborn são revisitados, bem como o povo de Dorne, a província mais ao sul e mais isolada de Westeros. São os últimos jogadores para completar o Jogo de Tronos e esta é a hora de colocar as cartas na mesa. É bom ressaltar que a conclusão dos capítulos de Dorne é uma das mais arrepiantes de toda a série.

Neste livro estão os capítulos mais belos da saga, com ênfase naquele chamado Cat of Cannals e um dos capítulos de Brienne onde o religioso discursa sobre os homens destruídos pela guerra. Aqui, a prosa de George Martin encontra sua forma mais bela. Não é apenas a trama que é contada, mas também é possível saborear vagarosamente todos os detalhes, a escolha de palavras, cenas e sensações do leitor. É fazer da leitura prazerosa e saborosa.

Por não ser um livro agitado e cheio de reviravoltas como anterior – além da expectativa dos quatro anos de espera – este é um livro visto pelo rabo dos olhos de alguns fãs, mas a leitura é belíssima. E, claro, é uma leitura que vale a pena ser apreciada e degustada com carinho.

E agora estamos esperando o quinto livro, que está prometido desde 2005. Entramos no sexto ano de espera: será que desse ano não passa? Eu pressinto que sim. Espero estar certa para logo poder trazer a resenha de A Dance with Dragons para vocês :)

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Estou ligeiramente ocupada garantindo o leitinho das crianças.

Dando tudo certo, semana que vem tem atualização aqui :)

Não percam!!!

Tenho pé atrás confesso com modinhas, ainda mais quando escuto opiniões divergentes e a própria proposta da coisa não me chama a atenção. No auge do Harry Potter, muito se questionou qual seria seu sucessor. Um dos “prováveis sucessores do Harry Potter” da vez foi Eragon – que saiu no Brasil mais ou menos na época em que foi anunciado a produção de um filme baseado na obra.

A história simplesmente não me interessou a princípio e continuou a não me interessar. Sempre torci o nariz, achando que não seria uma história de meu agrado, que o tempo gasto para lê-la poderia ser investido de maneira mais útil lendo coisas que fossem mais ao meu gosto. Só que alguns amigos, surpresos por eu ter lido Crepúsculo – e não desgostado -, alguns até com experiência de leitura, me disseram: “Por que não ler Eragon? É divertido e descompromissado – e mais satisfatório do que Crepúsculo”. Um dia, passeando pelos sites online, vi uma oferta imperdível: a saga inteira por R$29,90. Pareceu um preço justo pela curiosidade, então encomendei.

Resolvi ler Eragon, o primeiro da saga, de coração aberto, não esperando uma obra genial e revolucionária, mas diversão leve e despretensiosa.

Então comecei a ler a história de um mundo onde humanos, elfos (que vieram do… oeste, oh god), anões, orcs e nazgûls urgals e raz’acs convivem entre si. O mapa traz indicações a lugares como Eldor, Ardwen, Melian… Bom, sinto que já ouvi algo parecido em algum lugar, alguma vez…

Este é o mundo de Alagaësia, onde um anel foi forjado e agora precisa ser destruído nas montanhas de Mordor anos atrás, havia uma ordem de cavaleiros jedi místicos que controlavam seus dragões, detentores de um grande poder. Só que um destes cavaleiros, Galbatorix, perdeu seu dragão e, com a ajuda de um desertor, eliminou todos os demais cavaleiros-dragões, tornando-se o Imperador tirânico e despótico.

(a partir daqui, spoilers, ok?)

Entretanto, alguns ovos de dragão escaparam do massacre e um deles conseguiu ser enviado para um lugar seguro. Eragon, um jovem garoto órfão, criado pelos tios em uma fazenda, que desconhece seu próprio passado, encontra o ovo, que choca, revelando a existência de Saphira, uma dragoa azul que acabou de nascer mas tem personalidade de adolescente. Suas mentes se ligam e Eragon é revelado como um cavaleiro-dragão, o primeiro em séculos.

Então, guiado por Brom, aparentemente um bardo, mas um mago experimentado e repleto de conhecimentos, começa sua jornada do herói através do mundo de Alagaësia, para se encontrar com os Varden, uma facção rebelde que desafia o Imperador.

Lá pelas tantas, o destino de Eragon se cruza com o de uma bela princesa elfa que está aliada aos rebeldes. Acaba ganhando um aliado amigo, que o salva de poucas e boas, e acabam formando um trio até encontrarem o QG dos Varden.

Murtagh, o amigo (?) de Eragon, ressalte-se, é emo sorumbático, com dificuldades de relacionar-se ou relaxar, sendo perseguido por seu sharingan por sua origem. E, claro, Eragon e Arya, a elfa, se apaixonam, o que nunca é fácil nessas circunstâncias

E assim começam as aventuras de Eragon, cavaleiro dragão, no primeiro livro de sua (NOSSA, JURA?) trilogia. Ok, não é uma trilogia, virou tetralogia, jocosamente uma trilogia de quatro.

Toda a parte anterior dessa resenha foi para apontar, de forma irônica, sarcástica e ácida o que considero o maior e principal ponto fraco do livro: ele é um amálgama de várias sagas famosas. É quase um Senhor dos Anéis encontra Star Wars, com uma boooa pitada dos dragões de Pern por cima (que é uma série que nunca saiu no Brasil mas é um grande sucesso nos EUA).

Para deixar bem claro aqui: eu não chamaria de plágio, pois os elementos de várias histórias estão misturados entre si e não há cópia de nenhuma delas. Mas, também, não há nenhuma originalidade, nenhuma criação em cima de fórmulas já conhecidas, testadas e aprovadas. São elas reunidas, batidas no liquidificador e servidas ao público. É uma espécie de “roteiro-miojo” – bem menos complexo do que o arroz-com-feijão, só jogar a jornada do herói na água por três minutos e pôr temperinhos por cima.

A jornada do herói, ou monomito (algum dia volto ao tema com mais calma), é um roteiro basilar para se contar uma história e muito está relacionado ao processo de crescimento pessoal do indivíduo, mas colocá-la da forma mais linear possível em uma história, de forma que dê para identificar facilmente cada uma de suas etapas, está para lá de batido. É uma maneira fácil e prática de montar uma história, sim, quase com o preenchimento de lacunas, mas não traz nenhuma surpresa para o leitor com algum experimentalismo.

O que é outro ponto importante: eu não sou da faixa etária planejada para o livro, de jeito nenhum. Mas daí lembro que li o Senhor dos Anéis com 15 anos, sem maiores problemas – e, antes disso, já tinha lido Admirável Mundo Novo ou a Odisseia. Tudo bem, eu reconheço que essa é a exceção e não a regra, mas fica complicado não comparar Eragorn com toda a minha carga anterior de leitura – e que a total falta de originalidade do roteiro salte aos olhos.

O que é uma pena, porque a prosa do autor é até gostosa de se ler. Imagino o que ele faria com uma história que fosse um pouco mais dele…

E aqui outro ponto de esclarecimento: como já disse, a jornada do herói é uma das formas mais clássicas de se contar uma história. Há quem diga, inclusive, que todas as histórias já foram contadas. Não estou pregando aqui uma originalidade total – difícil, quase impossível, somos humanos, se formos buscar, todos os nossos dilemas possuem a mesma raiz – mas a utilização de elementos clássicos de uma forma original, de uma maneira nova. As próprias comparações que saltam aos olhos quando se lê Eragon: Star Wars não é um primor de originalidade, mas conseguiu reunir elementos antigos em algo novo. Mesmo o Senhor dos Anéis: trata-se de um paradigma do gênero fantástico, mas algumas das referências são óbvias (como O Anel dos Nibelungos, p. ex.). E, nunca é demais ressaltar, toda obra parte de uma série de referências anteriores – mas para que ela se torne algo novo, deve transcendê-las.

Eragon é um livro divertido, bom para passar o tempo, de leitura rápida. Há alguns problemas de suspensão da descrença – mais para o final, principalmente. Eu deixei de levar o livro a sério depois de uma passagem em que os personagens atravessam um deserto durante o dia (!!!) e praticamente a jato com seus cavalos. Um pouco de lógica básica, no caso, não faria nenhum mal à trama.

Outro ponto é que, pelo menos para mim, Eragon, Saphira e amigos próximos nunca estiveram realmente em perigo – exceto aqueles que, para qualquer um que já viu Star Wars, precisam ser eliminados para o bem da história. Essa sensação de que não interessa o que aconteça, o personagem vai se dar bem – não estou nem falando de morte, mas de ver planos darem redondamente errado, de perigos iminentes, de separações dolorosas, de ver o personagem “por baixo” para poder se reerguer.

Enfim, valeu a leitura, foi leve e divertida. Mas a satisfação foi a mesma de almoçar um miojo porque não tem mais nada em casa…

(e um p.s. inevitável: lá pelas tantas tem um figurante chamado Korgan. Não pude deixar de imaginar Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur, Elessar, de espada na mão dizendo “there can be only one“).
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Como todo bom leitor, tenho uma relação bastante pessoal com os autores de livros: tem aqueles de quem gosto muito e já li grande parte da obra ou estou próxima disso, os de que gostei da experiência e posso repeti-la, mas não é uma prioridade, os autores cuja leitura de uma de suas obras basta, os que larguei um dos livros pela metade e não pretendo que entrem nunca mais em minha pilha de leitura – e os que não gostei de minha primeira experiência de leitura, mas que por curiosidade ou insistência quero dar uma segunda chance (dois exemplos notórios aqui: William Gibson e André Vianco).

E esse é o caso de Bernard Cornwell. Como vocês já tiveram a oportunidade de perceber, minha primeira leitura do autor não me agradou, mas ele é tão querido e tem tantos fãs cativos que pensei que talvez o problema fosse com o livro escolhido, ou comigo, e resolvi que lhe daria uma segunda chance quando tivesse oportunidade.

Só que como ele é um autor de sagas longas de milhares de livros cada uma – que além de tudo são meio carinhos para meus bolsos de pobre mortal – e gostaria de uma amostra com começo, meio e fim, já que as sagas sempre tem a desculpa do “fica melhor no livro 2” ou algo parecido (eu particularmente discordo deste argumento, se uma história precisa de milhares de páginas para “ficar boa”, então ela não é boa, apesar de reconhecer que há tramas que mostram ao que vieram só lá pela metade ou da metade para o fim), queria um livro-solo. Azincourt, o lançamento mais recente, parecia, então, excelente para minha empreitada.

Bernard Cornwell, para o leitor desavisado, é um autor de ficção histórica em geral e da história inglesa em particular. Suas duas sagas mais conhecidas são as Crônicas Arturianas, que sem dúvida são sua obra mais conhecida, sobre o mítico Rei Arthur e sua Távola Redonda, e as Aventuras de Sharpe, sobre um soldado inglês de mesmo nome do início do século XIX – e daí conclui-se também outra predileção temática, sobre grandes guerras, conflitos e batalhas.

Azincourt (ou Agincourt, depende do lado do Canal da Mancha) é uma das batalhas da Guerra dos Cem Anos, disputada entre Inglaterra e França no século XV (e que teve várias personalidades históricas envolvidas nos seus mais diversos momentos, do rei Henrique V a Joana D’Arc), onde os ingleses, exaustos, devastados pela doença e em desvantagem numérica, venceram uma luta dada como perdida contra os franceses.

E a trama do livro será essa: a batalha e uma série de circunstâncias que as sucederam, através dp ponto de vista do protagonista da vez, Nick Hook, um guarda-caça de nascimento plebeu que é alistado no exército por uma série de circunstâncias que incluem rixas familiares, crimes não cometidos e uma boa dose de azar. Sua habilidade como arqueiro é notória – e a sorte da batalha será definida pela destreza com o arco.

Aqui, um ponto que merece destaque: apesar dos nomes que entram na história serem os dos grandes príncipes, generais e comandantes, quem parte para matar ou morrer em uma batalha são os peões – os soldados comuns, os homens do povo arrancados de sua rotina, voluntariamente ou não, colocados para combater em guerras que não são suas. As vidas na linha de frente são as suas, bem como é seu sangue que tinge de vermelho os anais da história. A trama narrará a história de alguns destes homens, além de, é claro, alguns dos nobres que colocaram seus nomes na história, entre eles o próprio Henrique V.

Mas, voltando ao livro em si: a trama demora para engrenar. As primeiras cinqüenta ou sessenta páginas, ou melhor, todo o caminho que leva Nick até a cidade francesa de Soissons e do massacre que a consumiu, é de uma chatice sem-tamanho. Eu iria largar o livro, desagradada, lá pela página 30, mas, com pena de ter desperdiçado a quantia investida nele, prossegui.

E esse é um dos grandes problemas da trama: as coisas demoram a acontecer e lá se vão páginas e mais páginas de explicações sobre a situação política, a constituição dos exércitos, o funcionamento de seus armamentos e por aí aofra. Para quem gosta deve ser até divertido, mas me deixou entediada.

Outro grande problema do livro é algo que já tinha me saltado aos olhos em O Último Reino: o protagonista, da linhagem de Chuck Norris, é o uber-homem no meio da gente comum: uma habilidade extraordinária com o arco, ok, aceitável; estar no lugar certo na hora certa o tempo todo, até tem desculpa porque a trama precisa caminhar de alguma forma; apesar de ter nascido, crescido e vivido como um guarda-caça treinado no arco em uma roça inglesa qualquer e, após uma hesitação e resistência iniciais agir como soldado com treinamento de exército, a suspensão da descrença começa a sofrer danos; com o passar da narrativa, apesar da guerra rolando solta ao redor, ter a certeza absoluta de que NADA vai acontecer com o protagonista simplesmente porque ele é melhor do que todo o resto: parou, né? (Isso porque nem mencionei que Deus fala com nosso amigo protagonista de vez em quando para impedir que a trama fuja de sua previsibilidade).

Ou seja: um livro em que a leitura não flui de maneira tranqüila, sem personagens carismáticos e com a suspensão da descrença inoperante. Difícil, né? No balanço final, foi interessante por ter me ensinado um pouco mais sobre a história inglesa e europeia, mas decepcionante em termos de trama. A impressão ruim construída em O Último Reino continua.

Ainda estou curiosa para ler as Crônicas Arturianas (porque concluí que pela legião de fãs essa história deve ser muito boa…), mas não é nem de longe uma prioridade na minha lista de leituras…

***

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Até a próxima!

Começamos com pé direito o segundo ano de blog! Os links foram arrumados, muita coisa boa foi adicionada – e ainda está por adicionar, vários blogs de autores precisam ser linkados! Se você, leitor, tem alguma sugestão de link, favor deixar nos comentários.

Também foram atualizadas as páginas Sobre a Leitura Escrita e a Política de Spoilers, que vocês encontram no cabeçalho. Há muitos esclarecimentos nas duas páginas, vale a pena dar uma olhadinha!

Amanhã, a primeira resenha de ano novo, então fiquem ligados no blog!

Olá, pessoal!

Primeiro quero pedir desculpas mas não pude terminar o presente de Natal que estava preparando para vocês – andei adoentada e longe da internet. Já estou melhor, obrigada, e vim aqui comemorar o aniversário do blog com vocês!

Em 12 de dezembro de 2008, nossas atividades foram iniciadas com a resenha de Fahrenheit 411 e desde então foram 22 resenhas, além de alguns posts especiais sobre assuntos literários. Não pude manter meu plano inicial de uma atualização semanal (às vezes tinha muito trabalho a fazer, às vezes alguns livros me consumiam mais tempo do que o esperado, às vezes nada colaborava), mas espero ter trazido informações legais para vocês durante este ano!

A título de curiosidade, os posts mais visitados, até o momento, foram os seguintes:

O campeoníssimo, como não poderia deixar de ser, foi a resenha da série Crepúsculo.
Em segundo lugar, o faraó egípcio Ramsés reina soberano.
Em terceiro lugar, a culinária de Julie&Julia (e acreditam que ainda não assisti ao filme?)
Em quarto lugar, minha tentativa bem-humorada de aula de literatura: E se meu namorado fosse um movimento literário?
Em quinto lugar, a primeiríssima resenha deste blog.

É uma experiência bem interessante resenhar – e, claro, manter um blog. Ando procurando coisas interessantes que alimentem tanto minha fome literária quanto que possam agradar à vocês, bem como correndo atrás das sugestões dos leitores (um dos livros sugeridos já está pela metade e vem aí em breve!). Está sendo uma experiência muito prazerosa para mim, espero que estejam gostando também!

E é este o principal objetivo do blog: compartilhar nossas experiências como leitores, seja pelas resenhas, seja pelos comentários.

Então, vai aqui o meu MUITO OBRIGADA por todos os que estão acompanhando o blog, seja o leitor casual, seja quem espera por cada atualização. Muito obrigada por estarmos nessa juntos!

Aproveito também para desejar para todos os visitantes um Feliz Natal e um excelente 2010! Que o próximo ano seja repleto de realizações!

Agora parto para minhas pequenas férias, mas no começo de janeiro estou de volta ao blog. E esperem por novidades, muitas novidades!!!

Até a próxima!

Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P ) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

***

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Como já disse no post anterior, é difícil escrever sobre a obra de uma pessoa próxima. Muito mais fácil quando o autor pertence a outro espaço e outro tempo – ou, mesmo ao ser brasileiro, não é alguém de sua convivência.

Conheço a Ana Cristina Rodrigues desde 2004 ou 2005. E, desde então, ela vem mostrando ao que veio. Não apenas com seus contos, mas também com a sua atitude: reclamar de uma realidade é muito fácil, mas e mudar essa realidade? Quem se arrisca? Ela é uma dessas pessoas.

Enquanto muitos choram pela pretensa falta de espaço do mercado editorial brasileiro, Ana Cristina tem iniciativas como a Fábrica dos Sonhos, que desde 2005 reune escritores do gênero especulativo para aprimorarem suas habilidades, a participação ativa na comunidade de ficção científica do Brasil, tanto já tendo sido presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) quanto na presença em eventos e palestras Brasil afora. E, claro, a moderação atenciosa nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia no orkut que, querendo ou não, reunem grande parte do pessoal que está em voga no momento. Isso sem citar os projetos-solo, as participações em antologias, como a Paradigmas (e, é claro, a Espelhos Irreais, confiram aqui :P ), publicações em sites como Hyperfan, em e-zines…

AnaCrônicas é seu primeiro livro-solo, onde estão reunidas uma série de contos curtos sobre temas fantásticos. Desde uma versão muito pessoal ao Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, em É Tarde!, conto que abre a coletânea, à revisão de personagens históricos em Os Olhos de Joana. Do maravilhoso conto de temática arturiana A Dama de Shalott (que, cabe aqui ressaltar, é meu conto preferido da antologia) à realidade pós-apocalíptica d’A Casa do Escudo Azul. De um doce e tocante conto sobre a perda, como O Caminho da Terra das Fadas à reflexão irônica sobre os fatos da vida de Deus Embaralha, o Destino Corta. Do pulsar sexual de Chiaroscuro às chamas de um amor impossível em Como Nos Tornamos Fogo.

São várias temáticas, vários estilos, vários pontos de vista – que ganham um toque especial com a pequena ilustração que os acompanha, cortesia de Estevão Ribeiro. E é um livro curtinho, que dá para ser saboreado em uma tarde chuvosa de maneira prazerosa. Como se tratam de contos curtos e de temática bem diferente entre si, o exercício de leitura é bem leve e quando menos se espera, o passeio por todas as temáticas propostas chegou ao fim.

O estilo da autora, mesmo que de formas diferentes, aparece claro em todos os contos: riqueza de temática, com a escolha de palavras adequadas para a transposição da temática proposta, sem a necessidade de muita enrolação para se alcançar o ponto desejado. As emoções também são apresentadas de maneira clara e são absorivdas com facilidade pelo leitor.

E, principalmente para mim, não seria demais dizer, é um ode à Fábrica dos Sonhos – a maioria dos contos foi visto pela primeira vez por lá. A sensação de ter estado junto durante a criação de uma obra que me chamou tanto a atenção, de acompanhar a evolução temática e de escrita de alguém in loco, é bem interessante -e, por que não dizer, recompensador.

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Estou preparando os especiais de um ano e de natal do blog! He he he!!! Quase um ano de blog e está sendo uma experiência bem satisfatória!

Até a próxima!

Inicialmente, cabe a consideração sobre o quão mais fácil é resenhar uma pessoa que esteja fisicamente e temporalmente distante de você do que uma próxima.

Não ando lendo muita coisa fora da ficção especulativa ultimamente. Para ser muito sincera, não estou por dentro da literatura “mainstream” (o termo aqui entre aspas, no seu significado literal de “corrente principal”, de literatura contemporânea sem gênero), de quem são os nomes fortes hoje e o que eles estão escrevendo. Gosto muito de ler clássicos e alguns autores consagrados do século XX, mas hesito um pouco antes de arriscar coisas novas sem saber se serão do meu gosto ou não. Talvez já tenha mencionado isso anteriormente, para quem acompanha o blog.

Recentemente, o amigo Eric Novello (honorável administrador do Fantastik e participante do Aguarrás) me enviou seu livro Histórias da Noite Carioca, literatura mainstream atualíssima, leve e de fácil leitura.

Trata-se da história de Lucas Moginie, um jovem escritor de relativo sucesso que recebe um ultimato de sua editora: ele precisa entregar o original de seu novo romance o mais rápido possível. Mas há um pequenino problema: Lucas está sofrendo de um leve e ligeiro bloqueio criativo… E, talvez por esse bloqueio ou por uma dessas grandes coincidências da vida, uma pessoa importante de seu passado bate à porta, e há alguns assuntos que ficaram com sua solução pendente.

Então o leitor acompanha através da narrativa em primeira pessoa a rotina de Lucas em sua busca pelo precioso tema e sua vida cotidiana, com personagens como os vizinhos sexualmente excêntricos, os amigos amalucados e a paisagem carioca, com suas ruas, praias, praças, parques e barzinhos.

E o ponto principal do livro, na minha opinião: tudo narrado com o mais fino humor irônico. Ironia é algo que muitos tentam, mas poucos conseguem fazer de maneira satisfatória, ainda mais quando o objetivo é auto-ironizar-se e também às pequenas coisas da vida, como relações de vizinhança ou o café da manhã.

É um relato sobre o desespero de cumprir um prazo (e qualquer um que, como eu, trabalhe com prazos fatais, sabe que beleza é isso), mas também de revisitar um passado mal-resolvido, com todas as consequências que isso pode trazer.

E tudo chega a uma conclusão: o livro, o passado, a vida. De uma forma atropelada e talvez até mesmo inusitada, mas de vez em quando todos nós somos pegos em armadilhas que não conseguimos antever.

Enfim, é um belo passeio pelas noites cariocas de Lucas Moginie, em um livro bem gostoso de ser lido.

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Uma das febres temáticas mais recorrentes no que diz respeito à literatura – e aos filmes, jogos, quadrinhos e cultura pop em geral – é o mito dos vampiros. É também uma febre cíclica: iniciou-se, agora, com a explosão chamada Crepúsculo, mas já houve outros ciclos de vampiros antes – e haverá outros depois. E, claro, nós, os autores brasileiros não poderiam ficar de fora dessa.

Como já disse antes em outras oportunidades, o mito do vampiro é sedutor por várias razões: primeiramente, pela universalidade, estando presente na grande maioria das culturas de uma forma ou de outra; segundo, pelos conflitos que acaba por levantar – o morto que não está morto, o monstro que tenta ou não recuperar sua humanidade e por aí afora; terceiro, a sensualidade inerente à sedução e à luxúria (luxúria não apenas em seu sentido sexual, mas no sentido amplo de “busca pela satisfação de um desejo/prazer”), afinal vampiros são criaturas movidas pelo desejo de sangue.

Tudo isso para demonstrar a versatilidade do vampiro, que pode ter tanto seu aspecto de besta ressaltado quanto o de criatura com ainda traços e desejos humanos, ainda que dotado de características inumanas.

Cá entre os patrícios, naquilo que se trata de vampiros como personagens e protagonistas de aventuras com muita ação, pancadaria, poderes mágicos e lutas, nada melhor do que citar André Vianco. É um autor com várias séries vampirescas, todas elas com os elementos acima citados, que possui uma legião de fãs ávidos.

Mas, como disse, o mito do vampiro tem muitas faces… E para o leitor, ou leitora, que deseja ver um universo em que os seres da noite lidem com as questões mais existenciais, como o dilema entre o homem e o monstro, e que esteja mais focadas em seus sentimentos? E para o leitor/a que deseja ver aqui o romance sobrenatural vampiro?

Dentre as várias autoras brasileiras que enveredam por essa trilha, destaco hoje Nazarethe Fonseca e seu Alma e Sangue – O Despertar do Vampiro, que recentemente ganhou nova edição pela editora Aleph. É para quem quer ver romance entre humana e vampiro, com todos os elementos que podem temperar essa relação.

Acompanhamos então, em primeira pessoa, a saga de Kara Ramos, uma jovem restauradora residente em São Luís do Maranhão, que já passou por muita coisa na vida apesar da pouca idade. Um belo dia ela é fisgada por uma oportunidade de ouro: fazer o projeto de restauração de um antigo casarão abandonado, que era a obsessão de seu falecido pai. O que ela não sabe é que no interior da casa jaz um vampiro, Jan Kman.

Esqueça Crepúsculo e os vampiros pasteurizados. Aqui, a besta dorme no coração dessas criaturas, que não tem pudores em matar para se alimentar, ou demonstrarsua força e selvageria sobrehumanas. A humanidade, após a mordida fatal, se foi, restando apenas as portas abertas da noite eterna – bem como seus mistérios e habitantes.

Kara e Kman, os protagonistas, jogam um jogo de gato e rato. A protagonista se divide entre o desejo e a repulsa, a paixão e a rejeição, o amor e o ódio. Quase ao ponto da bipolaridade, às vezes. E isso vai se tornando um pouco irritante com o tempo.

E, claro, como não poderia ser diferente, conviver com vampiros atrai companhias desagradáveis e riscos de vida para nossa protagonista – e também expõe relacionamentos humanos viciados. Há contas do passado a serem acertadas, e Kara acaba por ser o pivô de uma batalha começada há séculos.

A narrativa flui bem – e o romance de Kara e Kman é BASTANTE mais carnal do que o de Bella e Edward, para ficarmos no exemplo fácil. Só há alguns problemas em algumas cenas, em que o cenário desaparece e muda, causando aquela sensação de “mas onde ela estava mesmo? Por que essa cena foi cortada?”.

E o cenário é um dos pontos fortes da trama. A história se passa em São Luís – MA, terra natal da autora, e percorre suas ruas, prédios e cultura. Para alguém que mora no sudeste, como eu, é um cenário exótico – somos todos o mesmo Brasil, mas as características regionais diferem, e essa diferença é algo bonito e interessante de ser visto. E, inclusive, outro ponto fortíssimo, usar das nossas características como elementos da história, e não meramente como cenografia.

Um ponto da história que foi apenas tangenciado e que poderia ser melhor explorado é que não necessariamente o monstro é o vampiro. Pode ser também o humano sem nenhum freio moral em busca de seus objetivos.

Como ponto fraco, como já disse, alguns pontos em que a prosa se torna confusa e as cenas parecem cortadas e coladas sem muita coerência, mas é algo suportável. Outro ponto, quando Jan fala de seu passado: eu sou até bastante enjoada com alguns detalhes – e, no caso, os nomes dos personagens quebram o sense of wonder. Um detalhe bobo, mas que se estivesse presente, a história ficaria mais redonda.

Enfim, é uma história para quem quer ver romance sobrenatural, vampiros, beijo na boca e química, tudo isso com um tempero nacional bem interessante.

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P.S.: Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, a continuação do Despertar, foi lançado agora, dia 12/11! Confiram!

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