Após ler os quatro primeiros livros da série A Song of Ice and Fire, do George R.R. Martin, como já mencionei aqui antes, queria dar um tempo da literatura de fantasia. Por quê? A já citada série me impactou de uma maneira tão profunda que qualquer coisa do gênero que eu lesse a seguir seria eclipsada. Então, claro, procurei ler coisas que não fossem relacionadas ao gênero fantástico ou que tivessem alguma variedade temática grande o suficiente para evitar comparações.

Só que acabei esbarrando com O Nome do Vento, que veio bem recomendado por vários amigos e conhecidos. O livro (não confundir com A Sombra do Vento, por favor :P ) é o primeiro volume de uma trilogia, chamada Crônicas do Matador do Rei – e, claro, também se trata de um romance de high fantasy, com um mundo fantástico em que a magia e criaturas mágicas existem e atuam.

Bom dizer também que, como Jonathan Strange & Mr. Norrell, é uma obra que sai no Brasil quase que por engano, já que não vem seguida nem de filme e nem de hype – e ela foi lançada originalmente em 2007, ou seja, recentíssima (ainda mais se parar pra pensar que Eye of the World, o primeiro volume da série Wheel of Time, de Robert Jordan, que é escorada no hype lá fora, tendo inclusive um fandom bem ativo, só saiu no Brasil esse ano, com quase 20 anos de diferença do lançamento original…). Ponto para a editora Sextante – e espero que tragam mais livros recentes também!

Outro ponto forte da edição é a capa: um belo trabalho gráfico, uma ilustração bem caprichada, bem coerente com a proposta da trama e que chama a atenção.

Só que entramos aqui em um ponto fraco, pois nem tudo são flores: a tradução deixou um pouco a desejar. Há um erro bobo e que muda bastante o sentido da trama, mas a escolha lexical utilizada na edição brasileira não foi das mais felizes. Não é nada que prejudique a leitura, mas eu acho que poderia ter sido melhorado.

Ah, sobre a política de spoilers: o grande spoiler que o leitor encontrará abaixo está na orelha do livro, então não achei nenhum crime mencionar o fato.

Ultrapassadas as preliminares, vamos ao livro: somos apresentados a um mundo de fantasia, onde a magia e espécies mágicas pulsam, e também a Kote, um taverneiro de uma vilazinha do interior, que na verdade é um aventureiro aposentado. Não apenas um aventureiro: um guerreiro, bardo, cientista, que esteve envolvido em grandes eventos de seu mundo, que tornou-se uma lenda entre os vivos. Claro, no momento tudo o que ele deseja é paz e sossego, até ser surpreendido por um cronista renomado, que está interessado em conhecer sua história através de seu próprio relato e não vai desistir antes de consegui-lo.

Kote, após alguma insistência, concorda em contar sua história, mas afirma que precisará de três dias para isso – e aqui está o sentido da trilogia, cada dia correspondendo a um livro.

Então começamos do começo: a infância, quando ainda se chamava Kvote e era o filho do líder de um povo nômade e ligado às artes, espalhando suas canções e danças por todo o mundo. Ele, uma criança superdotada e bastante curiosa pelos mistérios do mundo ao seu redor, com uma facilidade impressionante de aprendizado.

Em uma das andanças de seu povo, acabam esbarrando com um latoeiro, que na verdade é um estudioso arcano que, dentre outras coisas, conhece o nome do vento. E, Kvote, como boa criança precoce, vai adotá-lo como mestre, e ouvir pela primeira vez sobre a Universidade, onde os conhecimentos são distribuídos e propagados.

Nessa hora, o pensamento foi irresistível: “ah não, um menino precoce e superdotado que encontra um mestre gente boa e vê suas habilidades sendo descobertas e alimentadas DE NOVO?”. Mas resolvi insistir um pouco na leitura para ver no que daria…

…e a vida do menino vira do avesso depois que seu povo é dizimado pelo Chandriano, uma organização mística que habita as lendas e superstições do mundo.

Aqui, cabe um parêntesis: como Kvote vem de um povo imerso em músicas e contos, as músicas e contos do mundo aparecem na narrativa, e são bem trabalhados e rítmicos. A rima do Chandriano, em especial, merece destaque: dá arrepios seja no original, seja em português. Fica a palhinha, no original:

when the hearthfire turn to blue,
what to do? what to do?
run outside, run and hide.
when his eyes are black as crow?
where to go? where to go?
near and far. here they are
see a man without a face?
move likes ghosts from place to place
what’s their plan? what’s their plain?
chandrian. chandrian

E o mundo de O Nome do Vento é bastante sombrio e cínico. É o mundo de um deus morto, onde a magia arcana foi proibida e até os dias atuais continua sendo vista com reservas, onde a diferença social existe e está latente. É um mundo onde mazelas existem, onde o vício e venda de drogas ocorrem à luz do dia, onde a degradação é visível e latente.

E Kvote tem a obrigação de enfrentar um mundo sombrio e cínico e sobreviver. E sobrevive, aos trancos e barrancos mas sobrevive (e essa parte da trama lembra bastante o Charles Dickens e seus órfãos). Até que, por alguns lances de sorte, acaba tendo a oportunidade de ir para a Universidade.

E a Universidade, não posso deixar de comentar, é uma versão sombria e cínica de Hogwarts, com as diferenças sociais exacerbadas e Kvote, inteligente mas tornado arrogante pela consciência de tal capacidade, desafiando as regras do lugar. Claro, ele não é o protagonista bonzinho, está ali para cometer pecados e pecadilhos, a tropeçar nas próprias pernas mas também ser vítima de injustiças alheias. E é interessante ver suas escolhas e atos por sua perspectiva e não por a de uma outra pessoa.

Um dos pontos interessantes do livro é ter vários dos clichês de fantasia revisitados, mas dentro de lugar. O choque de realidade do órfão precoce, a escola mágica que é tudo, menos um lugar amigável, as tavernas e bardos, tudo isso está lá. Inclusive, uma das melhores e mais criativas caçadas a um dragão que me lembro de ter visto ocorre neste livro, ao decorrer da trama.

Enfim, o primeiro dia da vida de Kvote é animado – e, por ser uma história narrada em primeira pessoa, sabemos que ele sobreviverá a todos os apertos -, é interessante ver as memórias de um personagem tão fantástico expostas e exploradas. Foi uma bela surpresa, valeu a pena tê-lo conhecido e a seu mundo esse ano e espero continuar a ouvir seu relato sobre sua própria vida em breve!

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Como já disse no post anterior, é difícil escrever sobre a obra de uma pessoa próxima. Muito mais fácil quando o autor pertence a outro espaço e outro tempo – ou, mesmo ao ser brasileiro, não é alguém de sua convivência.

Conheço a Ana Cristina Rodrigues desde 2004 ou 2005. E, desde então, ela vem mostrando ao que veio. Não apenas com seus contos, mas também com a sua atitude: reclamar de uma realidade é muito fácil, mas e mudar essa realidade? Quem se arrisca? Ela é uma dessas pessoas.

Enquanto muitos choram pela pretensa falta de espaço do mercado editorial brasileiro, Ana Cristina tem iniciativas como a Fábrica dos Sonhos, que desde 2005 reune escritores do gênero especulativo para aprimorarem suas habilidades, a participação ativa na comunidade de ficção científica do Brasil, tanto já tendo sido presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) quanto na presença em eventos e palestras Brasil afora. E, claro, a moderação atenciosa nas comunidades Ficção Científica e Escritores de Fantasia no orkut que, querendo ou não, reunem grande parte do pessoal que está em voga no momento. Isso sem citar os projetos-solo, as participações em antologias, como a Paradigmas (e, é claro, a Espelhos Irreais, confiram aqui :P ), publicações em sites como Hyperfan, em e-zines…

AnaCrônicas é seu primeiro livro-solo, onde estão reunidas uma série de contos curtos sobre temas fantásticos. Desde uma versão muito pessoal ao Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, em É Tarde!, conto que abre a coletânea, à revisão de personagens históricos em Os Olhos de Joana. Do maravilhoso conto de temática arturiana A Dama de Shalott (que, cabe aqui ressaltar, é meu conto preferido da antologia) à realidade pós-apocalíptica d’A Casa do Escudo Azul. De um doce e tocante conto sobre a perda, como O Caminho da Terra das Fadas à reflexão irônica sobre os fatos da vida de Deus Embaralha, o Destino Corta. Do pulsar sexual de Chiaroscuro às chamas de um amor impossível em Como Nos Tornamos Fogo.

São várias temáticas, vários estilos, vários pontos de vista – que ganham um toque especial com a pequena ilustração que os acompanha, cortesia de Estevão Ribeiro. E é um livro curtinho, que dá para ser saboreado em uma tarde chuvosa de maneira prazerosa. Como se tratam de contos curtos e de temática bem diferente entre si, o exercício de leitura é bem leve e quando menos se espera, o passeio por todas as temáticas propostas chegou ao fim.

O estilo da autora, mesmo que de formas diferentes, aparece claro em todos os contos: riqueza de temática, com a escolha de palavras adequadas para a transposição da temática proposta, sem a necessidade de muita enrolação para se alcançar o ponto desejado. As emoções também são apresentadas de maneira clara e são absorivdas com facilidade pelo leitor.

E, principalmente para mim, não seria demais dizer, é um ode à Fábrica dos Sonhos – a maioria dos contos foi visto pela primeira vez por lá. A sensação de ter estado junto durante a criação de uma obra que me chamou tanto a atenção, de acompanhar a evolução temática e de escrita de alguém in loco, é bem interessante -e, por que não dizer, recompensador.

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Estou preparando os especiais de um ano e de natal do blog! He he he!!! Quase um ano de blog e está sendo uma experiência bem satisfatória!

Até a próxima!

Inicialmente, cabe a consideração sobre o quão mais fácil é resenhar uma pessoa que esteja fisicamente e temporalmente distante de você do que uma próxima.

Não ando lendo muita coisa fora da ficção especulativa ultimamente. Para ser muito sincera, não estou por dentro da literatura “mainstream” (o termo aqui entre aspas, no seu significado literal de “corrente principal”, de literatura contemporânea sem gênero), de quem são os nomes fortes hoje e o que eles estão escrevendo. Gosto muito de ler clássicos e alguns autores consagrados do século XX, mas hesito um pouco antes de arriscar coisas novas sem saber se serão do meu gosto ou não. Talvez já tenha mencionado isso anteriormente, para quem acompanha o blog.

Recentemente, o amigo Eric Novello (honorável administrador do Fantastik e participante do Aguarrás) me enviou seu livro Histórias da Noite Carioca, literatura mainstream atualíssima, leve e de fácil leitura.

Trata-se da história de Lucas Moginie, um jovem escritor de relativo sucesso que recebe um ultimato de sua editora: ele precisa entregar o original de seu novo romance o mais rápido possível. Mas há um pequenino problema: Lucas está sofrendo de um leve e ligeiro bloqueio criativo… E, talvez por esse bloqueio ou por uma dessas grandes coincidências da vida, uma pessoa importante de seu passado bate à porta, e há alguns assuntos que ficaram com sua solução pendente.

Então o leitor acompanha através da narrativa em primeira pessoa a rotina de Lucas em sua busca pelo precioso tema e sua vida cotidiana, com personagens como os vizinhos sexualmente excêntricos, os amigos amalucados e a paisagem carioca, com suas ruas, praias, praças, parques e barzinhos.

E o ponto principal do livro, na minha opinião: tudo narrado com o mais fino humor irônico. Ironia é algo que muitos tentam, mas poucos conseguem fazer de maneira satisfatória, ainda mais quando o objetivo é auto-ironizar-se e também às pequenas coisas da vida, como relações de vizinhança ou o café da manhã.

É um relato sobre o desespero de cumprir um prazo (e qualquer um que, como eu, trabalhe com prazos fatais, sabe que beleza é isso), mas também de revisitar um passado mal-resolvido, com todas as consequências que isso pode trazer.

E tudo chega a uma conclusão: o livro, o passado, a vida. De uma forma atropelada e talvez até mesmo inusitada, mas de vez em quando todos nós somos pegos em armadilhas que não conseguimos antever.

Enfim, é um belo passeio pelas noites cariocas de Lucas Moginie, em um livro bem gostoso de ser lido.

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Uma das febres temáticas mais recorrentes no que diz respeito à literatura – e aos filmes, jogos, quadrinhos e cultura pop em geral – é o mito dos vampiros. É também uma febre cíclica: iniciou-se, agora, com a explosão chamada Crepúsculo, mas já houve outros ciclos de vampiros antes – e haverá outros depois. E, claro, nós, os autores brasileiros não poderiam ficar de fora dessa.

Como já disse antes em outras oportunidades, o mito do vampiro é sedutor por várias razões: primeiramente, pela universalidade, estando presente na grande maioria das culturas de uma forma ou de outra; segundo, pelos conflitos que acaba por levantar – o morto que não está morto, o monstro que tenta ou não recuperar sua humanidade e por aí afora; terceiro, a sensualidade inerente à sedução e à luxúria (luxúria não apenas em seu sentido sexual, mas no sentido amplo de “busca pela satisfação de um desejo/prazer”), afinal vampiros são criaturas movidas pelo desejo de sangue.

Tudo isso para demonstrar a versatilidade do vampiro, que pode ter tanto seu aspecto de besta ressaltado quanto o de criatura com ainda traços e desejos humanos, ainda que dotado de características inumanas.

Cá entre os patrícios, naquilo que se trata de vampiros como personagens e protagonistas de aventuras com muita ação, pancadaria, poderes mágicos e lutas, nada melhor do que citar André Vianco. É um autor com várias séries vampirescas, todas elas com os elementos acima citados, que possui uma legião de fãs ávidos.

Mas, como disse, o mito do vampiro tem muitas faces… E para o leitor, ou leitora, que deseja ver um universo em que os seres da noite lidem com as questões mais existenciais, como o dilema entre o homem e o monstro, e que esteja mais focadas em seus sentimentos? E para o leitor/a que deseja ver aqui o romance sobrenatural vampiro?

Dentre as várias autoras brasileiras que enveredam por essa trilha, destaco hoje Nazarethe Fonseca e seu Alma e Sangue – O Despertar do Vampiro, que recentemente ganhou nova edição pela editora Aleph. É para quem quer ver romance entre humana e vampiro, com todos os elementos que podem temperar essa relação.

Acompanhamos então, em primeira pessoa, a saga de Kara Ramos, uma jovem restauradora residente em São Luís do Maranhão, que já passou por muita coisa na vida apesar da pouca idade. Um belo dia ela é fisgada por uma oportunidade de ouro: fazer o projeto de restauração de um antigo casarão abandonado, que era a obsessão de seu falecido pai. O que ela não sabe é que no interior da casa jaz um vampiro, Jan Kman.

Esqueça Crepúsculo e os vampiros pasteurizados. Aqui, a besta dorme no coração dessas criaturas, que não tem pudores em matar para se alimentar, ou demonstrarsua força e selvageria sobrehumanas. A humanidade, após a mordida fatal, se foi, restando apenas as portas abertas da noite eterna – bem como seus mistérios e habitantes.

Kara e Kman, os protagonistas, jogam um jogo de gato e rato. A protagonista se divide entre o desejo e a repulsa, a paixão e a rejeição, o amor e o ódio. Quase ao ponto da bipolaridade, às vezes. E isso vai se tornando um pouco irritante com o tempo.

E, claro, como não poderia ser diferente, conviver com vampiros atrai companhias desagradáveis e riscos de vida para nossa protagonista – e também expõe relacionamentos humanos viciados. Há contas do passado a serem acertadas, e Kara acaba por ser o pivô de uma batalha começada há séculos.

A narrativa flui bem – e o romance de Kara e Kman é BASTANTE mais carnal do que o de Bella e Edward, para ficarmos no exemplo fácil. Só há alguns problemas em algumas cenas, em que o cenário desaparece e muda, causando aquela sensação de “mas onde ela estava mesmo? Por que essa cena foi cortada?”.

E o cenário é um dos pontos fortes da trama. A história se passa em São Luís – MA, terra natal da autora, e percorre suas ruas, prédios e cultura. Para alguém que mora no sudeste, como eu, é um cenário exótico – somos todos o mesmo Brasil, mas as características regionais diferem, e essa diferença é algo bonito e interessante de ser visto. E, inclusive, outro ponto fortíssimo, usar das nossas características como elementos da história, e não meramente como cenografia.

Um ponto da história que foi apenas tangenciado e que poderia ser melhor explorado é que não necessariamente o monstro é o vampiro. Pode ser também o humano sem nenhum freio moral em busca de seus objetivos.

Como ponto fraco, como já disse, alguns pontos em que a prosa se torna confusa e as cenas parecem cortadas e coladas sem muita coerência, mas é algo suportável. Outro ponto, quando Jan fala de seu passado: eu sou até bastante enjoada com alguns detalhes – e, no caso, os nomes dos personagens quebram o sense of wonder. Um detalhe bobo, mas que se estivesse presente, a história ficaria mais redonda.

Enfim, é uma história para quem quer ver romance sobrenatural, vampiros, beijo na boca e química, tudo isso com um tempero nacional bem interessante.

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P.S.: Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, a continuação do Despertar, foi lançado agora, dia 12/11! Confiram!

Neil Gaiman é um escritor britânico que ganhou fama internacional como roteirista da série de quadrinhos Sandman, da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. Trata de uma das séries que revolucionou o próprio conceito de quadrinhos como entretenimento, dando-lhes um viés ao mesmo tempo literário e artístico, mitológico e pop. É uma grande releitura de Sandman, personagem clássico da editora, mas também do mito de Morfeu, o deus dos sonhos dos gregos.

Stardust, elaborado juntamente com o desenhista Charles Vess, lançado originalmente em volumes pela DC, traz uma proposta semelhante: um conto de fadas – ricamente ilustrado, diga-se de passagem – elaborado para leitores adultos.

A trama é bem simples: na Inglaterra vitoriana, em uma pequena vila que faz fronteira entre o mundo dos mortais e o mundo das fadas, um jovem faz a seguinte promessa para sua amada: capturar uma estrela cadente. Só que, como é natural em um conto de fadas, a natureza da estrela cadente não é exatamente o que ele quer encontrar…

Aqui, a mistura do clássico e do pop apresentada em Sandman dá lugar aos elementos típicos dos contos de fadas: a bruxa, a princesa desaparecida, o herói valente que tem um coração de ouro, criaturas que o ajudarão em seu percurso, um reino que precisa de um herdeiro, a simbologia de números como três e sete, a presença e o poder das cantigas… Tudo isso em uma construção interessante e intrincada.

Mas, acima de tudo, é um livro que, apesar de um autor experiente e com domínio de narrativa invejável, possui alguns problemas sérios. O primeiro deles: quando a história chega em sua metade, o ritmo se altera totalmente. Era como se a cadência de uma melodia, que se mantinha durante a primeira parte, fosse alterada de maneira radical. Os acontecimentos se aceleram mas não porque a narrativa e a condução dos mesmos assim o exige – parece que o autor detalhou demais os primeiros elementos e, tendo um número limitado de páginas a cumprir, saiu correndo no final.

Além disso, a aparição da Irmandade do Castelo aparece muito mais como deus ex machina do que como solução. São personagens totalmente isolados da trama, que não se amarram ou se encaixam e deixam mais perguntas do que respostas. Servem apenas de via fácil para o autor tirar seus personagens de uma enrascada.

Alguns acontecimentos do desfecho da história também tem esse gosto de deus ex machina. Um fato bastante relevante na vida de Tristram passa quase que batido, enquanto outro simplesmente surge, sem nenhuma indicação de que aquilo poderia ocorrer. Mesmo os finais de alguns personagens parecem forçados, não-naturais, mal trabalhados… Uma pena. Sinceramente, esse era um universo que merecia mais capricho. Prefiro acreditar que a DC Comics precisou diminuir o número de edições por alguma razão, fazendo com que o autor não pudesse concluir e colocar os detalhes necessários para a trama.

E aqui cabe um adendo. Em 2007, a adaptação de Stardust chegou às telas de cinema.

Adaptação sempre é uma questão polêmica, mas o roteiro do filme de Stardust corrige algumas das falhas grandes e visíveis do livro, transcrevendo-as em um filme delicado, interessante – e, até mesmo, algo que o livro não dá brecha, com cenas de ação. Os grandes buracos do livro são preenchidos, as falhas arrumadas, algumas adições bem interessantes. Vale, principalmente, por um personagem exclusivo do filme: o capitão Shakespeare, que inclusive é o dono das melhores tiradas.

É um desses raros casos em que o filme sai melhor do que o livro originário, talvez por se permitir uma exploração maior e melhor do cenário.

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O mundo nem sempre foi do jeito que é hoje. O poder muda de mãos, o conhecimento, a riqueza… e todos eles se movimentam, espalham e retraem com o tempo. Por volta do século X, a vanguarda científica e tecnológica do mundo ocidental encontrava-se nos países árabes – bastante irônico se pensarmos em sua situação geopolítica atual, bem como em alguns pré-conceitos e preconceitos bastante disseminados. Ali, naquele momento histórico, estava centrado o ápice da civilização e da intelectualidade do mundo.

Agora, imagine que um árabe dê de cara com um povo bárbaro, diferente em tudo de sua própria cultura. Esse é um dos pontos de partida de Devoradores de Mortos, de Michael Crichton.

Michael Crichton era um escritor especialista em best-sellers, em todos os gêneros: romance, suspense, ficção científica, fantasia… Talvez o seu trabalho mais conhecido seja O Parque dos Dinossauros, que inspirou o filme – e vários dos seus livros acabaram por virar filme. (Devoradores de Mortos, inclusive, deu origem a O 13º Guerreiro).

Um ponto interessante é que a trama é trazida como relato histórico, inclusive com notas de rodapé produzidas pelo próprio autor, como se fosse um manuscrito antigo traduzido por ele. É uma escolha narrativa bastante interessante e que funciona muito bem na história a ser contada aqui – o ser que sai da metrópole e se encontra com os bárbaros e se espanta com a diferença de costumes e modo de vida.

Só que entramos aqui na segunda premissa da história: os bárbaros são nórdicos, liderados pelo lendário Beowulf. Será recontado então, através do olhar de um observador alienígena, que além de narrar a saga, dirá muito também sobre a cultura em que se insere. A trama não diz respeito apenas à busca do herói pelo monstro e pela mãe do monstro, mas a todo o processo, detalhes e minúncias envolvidos.

E, como a trama é revestida por uma aura de relato histórico, a explicação do monstro também tem algum senso de pseudo-ciência, o que acaba muito bem construído. Também é de se ressaltar o trabalho de pesquisa realizado pelo autor, que não tirou as explicações sobre os povos nórdicos e seus hábitos simplesmente de sua cabeça.

É um livro curto e de leitura fácil, temática interessante e uma boa introdução à obra de um autor tão versátil.

O Papo na Estante, podcast dedicado ao debate da literatura, em especial da literatura especulativa, está concorrendo ao Prêmio Podcast 2009!

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Hoje, vamos a um post que difere um pouco das resenhas do blog, bem como sobre a temática principal, que é a literatura, mas que vai para uma arte que a tange, a dá substância e sentido: contar histórias.

Qual é uma das formas mais atuais – e subestimada, no mais das vezes! – de se contar uma história nos dias de hoje? Através, é claro, dos jogos eletrônicos. Aqui, primeiramente, antes de prosseguirmos, gostaria de fazer algumas ressalvas. Primeiro: a função precípua de um videogame, obviamente, é o entertenimento. Ou alguém aí enxerga algo além disso em jogos como Space Invaders ou Winning Eleven, dentre muitos outros?

Segundo: não estou querendo aqui igualar literatura e videogame. É tão sem pé nem cabeça quando igualar literatura e cinema, literatura e música ou mesmo literatura e quadrinhos. São mídias diferentes, formatos diferentes, sentidos diferentes a serem despertados, reações diferentes a serem alcançadas.

E, terceiro, vocês, meus leitores, são pessoas cultas o suficiente para estarem cientes que videogames não são coisa só para crianças. De forma alguma. A indústria de jogos é tão segmentada quanto qualquer outra, existem jogos planejados tanto para crianças quanto para adultos (claro, se você acha que jogos como GTA foram feitos para crianças de oito anos jogarem… Sei lá, também não teriam problemas em deixar seus filhos de oito anos lerem Anais Nin, Clive Barker ou Thomas Harris… )

Videogame é uma das formas modernas e populares de entretenimento. É possível ver consoles, dos mais antigos aos mais atuais – e mesmo jogos para computador, por que não? – em todas as classes sociais e em todas as faixas de idade. É uma forma de diversão inteligente – pois é, saudosistas, quebrar a cuca às vezes por dias para resolver um mistério ou procurar um caminho para passar de uma determinada fase pode ser tão ou mais desafiante, desenvolver tão e mais conexões cerebrais, criatividade, imaginação e jogo de cintura do que fazer um boizinho de chuchu ou um telefone de latas…

E qual é a base do videogame? Você, jogador, é o protagonista da história, e a partir de seus olhos comandará a história. Pode ser algo bem simples, como derrotar todos os monstros e salvar a princesa da torre, mas também pode envolver uma trama complexa, com vários quebra-cabeças e reviravoltas, nas quais você pouco sabe sobre si mesmo, sobre seu mundo e sua missão, que se desvelarão aos poucos.

Para que toda a trama se desvende, será necessário a você, protagonista, buscar pelas pistas, conversar com as pessoas corretas, procurar aliados, evitar inimigos e vencer desafios que levarão à conclusão da missão. Em um mundo sob sua perspectiva, onde suas ações determinarão, sob certos parâmetros, quais serão os rumos da trama. Onde há tramas paralelas que estão ali para serem resolvidas, em que o cenário pode ser explorado, onde há trilha sonora. O jogador, certamente, tem um papel muito mais ativo na construção da trama do que se estivesse meramente lendo ou assistindo. O protagonista vivencia a trama.

E aqui fica a questão para quem se propõe a escrever: como ser tão interessante a um jovem leitor do que um jogo que ele possa protagonizar? Claro, novamente, a experiência de ler um livro é totalmente diferente daquela de jogar um jogo, não são mutuamente exclusivas, mas como atrair alguém para a leitura, em um mundo de interatividade?

Onde cada mínimo passo do protagonista pode ser acompanhado, onde sua arma pode ser forjada, onde o desafio de matar um dragão (ou qualquer outro adversário trazido pela trama) não está descrito, mas deve ser executado ali para que a trama se desenvolva, o enigma que deve ser resolvido para que tudo avance… Talvez por isso um jogo seja tão envolvente, pela oportunidade de ser, você mesmo, o centro de toda a ação e o catalisador dos acontecimentos.

Essa consciência do “contar e construir uma história” está presente em vários jogos, dos mais diferentes estilos. Inclusive, alguns jogos possuem tramas mais complexas e bem-trabalhadas do que muitos livros. Cito como exemplo aqui Final Fantasy VI – uma das melhores tramas e construção de personagens que já vi em qualquer mídia. Enfim, uma das histórias mais bem-trabalhadas e contadas que já vi.

Autores, não desprezem a narrativa dos videogames, como não devem desprezar o cinema e os quadrinhos. Há muito a ser ensinado e aproveitado em termos de narrativa, temática e dinâmica. Leitores-jogadores: saibam apreciar uma boa história onde quer que a encontrem, dispam-se de seus preconceitos. Jogar um bom jogo pode ser uma experiência tão recompensadora quanto ler um bom livro.

Há muito que ainda poderia ser dito para o tema mas, por hoje, encerrarei com dois vídeos, da cena mais tocante que já vi em um videogame, em sua versão original e no remake feito em computação gráfica.

Até a próxima! E os comentários estão livres, lá em cima!

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Olá! O blog andou um tanto quanto silencioso nos últimos tempos, mas minha vida fora daqui também anda agitada. Estou aproveitando a atualização para juntar links, organizar coisas e tirar as teias de aranha do blog. Enfim.

Terminei os livros já publicados da série A Song of Ice and Fire. Como o volume de spoilers vai aumentando gradualmente, e vocês conhecem a política de spoilers do blog, achei que não seria conveniente fazer resenhas dos dois últimos livros. Mas, em compensação, como boa fangirl que sou, já estou prometendo uma resenha que englobe tudo!

A coisa boa de não ter podido atualizar, também, é que estou devendo quatro resenhas além da já citada! Ou seja, tem muito material para vir pra cá. E espero ter novidades dentro de breve!

Mas chega de blablabla e vamos ao livro de hoje. Primeiro, soube deste livro primeiramente por uma notinha de jornal sobre o filme baseado nele, e a temática me interessou: Julia Child é uma chef famosa, responsável pela popularização da culinária francesa nos Estados Unidos na década de 1960, enquanto Julie Powell, nos anos 2000, vivendo um mau momento de sua vida, impõe-se o seguinte desafio: preparar, em um ano, todas as receitas do livro de Julia Child (o filme, estrelado por Meryl Streep e Amy Adams, estreia no Brasil em outubro).

A premissa me pareceu interessante: a culinária servindo como vetor de uma mudança de vida. Além disso, pelo menos por enquanto, estou tentando evitar livros de fantasia para que minha impressão sobre eles não saia viciada (quero ver alguém me causar a sensação de maravilhamento que o sr. George R. R. Martin me causou), e este parecia ser do tipo leve, divertido e não-fantástico que eu procurava.

O livro, baseado em fatos reais, narra a história de Julie Powell, aproximando-se dos trinta anos, com um emprego horrível, precisando se mudar para um apartamento péssimo e sendo cobrada, ainda que internamente, por filhos. O suficiente para qualquer um surtar, não? Então, visitando sua mãe, ela encontra o livro Mastering the Art of French Cooking (Dominando a arte da culinária francesa, numa tradução livre), de autoria de Julia Child, e, com o apoio de seu marido, se propõe o seguinte desafio: preparar todas as mais de 500 receitas do livro em 365 dias – e relatar, em um blog, seus progressos diários.

Claro que este não é um processo simples, afinal a vida e todos os seus problemas consequentes continua lá. A autora relata suas próprias crises pessoais, como a falta de apoio da mãe ao seu projeto, o apartamento mal localizado e caindo aos pedaços, o emprego desestimulante e enfadonho… Tudo isso regado a manteiga e vísceras (só de pensar em fígado de frango…IUCK!!!!!!).

Claro, Julie e o marido tem suas restrições alimentares, mas todas caem por terra pelo domínio da culinária francesa. Quem nunca comera ovos antes, passa a apreciá-los, bem com vísceras e pepinos.

Outra coisa, o quanto o ato de comer, de servir comida, se relaciona à interação social. Nós nos reunimos em volta da mesa, convidamos os amigos para jantar ou almoçar, vamos para bares e restaurantes… Nos domingos e natais, reunimos a família em volta da mesa. Comer e conviver são coisas que se complementam, que caminham juntas. Conversar com as pessoas queridas usando como pretexto comidinhas gostosas é uma das melhores coisas que existem, e até isso parece ser modificado na vida de Julie – sua casa, em um lugar longíquo e de acesso complicado, vira um reduto de amigos atrás de sua comidinha.

E, claro, a importância que blogar adquire em sua vida, afinal os relatos diários faziam parte do desafio. O blog se tornou um sucesso e a relação com os leitores importante tanto para sua concretização quanto para dar novos ares e um novo rumo para a vida. Não sei. Quem sabe os comentários desse blog comecem a bombar também? :P

Enfim, é uma leitura leve, desbocada e divertida, sobre coisas que uma pessoa pode resolver fazer para dar um up na própria vida.

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Até a próxima!

O autor Sérgio Pereira Couto nos comunica o lançamento de seu novo livro, Investigação Criminal – Suspense e Ação para Desvendar um Crime Macabro. Seguem as informações:

Sérgio já é um nome conhecido no mercado literário com cerca de 30 livros lançados e mais de cem mil cópias vendidas de toda sua obra. Já foi entrevistado por vários sites e revistas, das quais a mais recente é a Istoé de 4 de agosto de 2009, quando falou sobre Sociedades Secretas. Dá palestras regularmente sobre o assunto na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, em São Paulo, e colabora para a revista LEITURAS DA HISTÓRIA, da Editora Escala.

Sérgio Pereira Couto é jornalista com passagem por revistas como Discovery Magazine e Ciência Criminal. Neste livro revela em detalhes a vida de um investigador criminal em um romance recheado com suspense e aventura.

Entre os romances publicados estão RENASCIMENTO (Giz Editora) e o best seller SOCIEDADES SECRETAS (atualmente na terceira edição) e SOCIEDADES SECRETAS – O SUBMUNDO (a continuação). INVESTIGAÇÃO CRIMINAL foi o primeiro livro de sua autoria no gênero publicado.

O romance foi escrito baseado em pesquisas e entrevistas com CSIs (Crime Scene Investigators) verídicos que trabalham na cidade de Little Rock, no estado norte-americano do Arkansas, e traz para o público não apenas informações sobre esses profissionais como também fala sobre alguns procedimentos adotados pela Polícia Técnico-Científica de São Paulo, que também serviu de inspiração para o enredo.

O livro foi muito elogiado pelo superintendente da Polícia Técnico-Científica, Celso Perioli, e pelo Diretor do Instituto de Criminalística, José Domingos Moreira das Eiras. Traz inclusive comentários da pesquisadora Ilana Casoy, autora dos livros Serial Killer e O Quinto Mandamento (sobre o caso Richthofen).

A Trama
Tony Draschko é um jovem brasileiro filho de poloneses cujos pais morrem durante um assalto em São Paulo. Seu tio, comissário de polícia da cidade de Little Rock, no estado norte-americano do Arkansas, leva o sobrinho para viver com ele e sua esposa, Donna.

Lá ele estuda e desenvolve um gosto pela investigação criminal. E passa a esperar por uma oportunidade de obter um emprego como CSA (Analista de Cena de Crime) no laboratório local, um dos melhores dos Estados Unidos. Com sérios problemas emocionais devido à morte de seus pais, o psicólogo forense encarregado de examiná-lo libera-o em troca de sessões constantes para tratamento de seus medos.

Tony é chamado pelo tio para investigar o misterioso assassinato de um músico de blues num clube noturno. Ele e sua parceira embarcam então numa investigação onde ele usará os conhecimentos pessoais mais tudo que aprendeu como fã da série de TV CSI para capturar o assassino antes que seja tarde demais. O livro, que foi revisado pela autora escritora forense Ilana Casoy, que comentou:

“Tudo o que você queria saber sobre perícia, numa trama de tirar o fôlego! Sérgio Pereira Couto abre com maestria o gênero Suspense Científico no Brasil. Finalmente um talentoso escritor de suspense científico emerge em nosso país. Se você é fã do seriado C.S.I., vai ler este romance de Sérgio Pereira Couto num fôlego só. Com informações preciosas sobre perícia científica permeando toda a história, é leitura obrigatória para os amantes da ciência aplicada na solução de crimes. E mesmo os mais experientes não adivinharão o final!”

Para quem gosta do gênero policial, vale a pena conferir!

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